Quando contares a nossa
história conta-a bem contada. Que todos saibam que fui assassinada, que já
estava morta quando me suicidei, pois já não era nada, já não existia, já me
havias previamente aniquilado. Não acredito que me deixei anular desta maneira.
Eu, logo eu, que achava o suicídio o maior adágio da cobardia… tudo o que um
dia não desejei para mim, abateu-me embuçado de amor-perfeito. O que querias
mais de mim? O que é que estava ao meu alcance e não te dei? Que nojo, que nojo
tenho de mim, de me teres tocado, trespassado, penetrado… de me ter deixado
invadir por dentro e por fora. Que raiva de já não me conseguir achar sem ti.
Que irónico, como se antes de tu apareceres eu não tivesse já uma vida, que
bela vida. Era dona de mim, do mundo, de tudo, respirava uma alforria que até
Baco cobiçaria, uma satisfação ingénuo-promíscua… que saudades de olhar para
mim no espelho e não ficar um trapo por não contemplar também uns ombros fortes
a traçarem-me. Dei-te os meus segredos… vasculhas-te todos os meus escombros,
fantasmas e medos. E todos eles usaste em teu favor. Ensinaste-me a odiar-me.
Tu, logo, tu, que gostavas que olhassem para ti como o ser com o pior fado que
já se viu, como o sofredor, o pensador!… quero que morras, que ardas, que
derretas. Eu fui digna de te petiscar o melhor, não de o deglutir… não, só de o
petiscar quando, como e onde quisesses. Amo-te tanto. Que me fizeste tu?
Desconstruir e depois construir a teu belo prazer. Como ficavas excitado cada
vez que eu chorava, e foram tantas vezes, nunca tinha chorado assim antes. Que
sina a minha, bem que a cartomante me disse que teria a mesma que todas as
mulheres da minha estirpe. Homens que querem todas as mulheres, que são tão
fracos que precisam de trair e de enganar para se sentirem os mais poderosos.
Querias-me na prateleira, seu mentiroso compulsivo?! Despeço-me da vida com
pena. Tinha tantos prazeres e todos eles soubeste tornar menos aprazíveis,
detestáveis… soubeste fazer-me sentir culpada por ter prazeres, por ter coisas
de que gostava..Carne, carne, foi como tu conseguiste que me sentisse somente.
O nosso amor? Que amor é este, que castra, proíbe e anula. Tenho raiva de me
ver tão pequenina. Sou muito fraca, não mereço viver, se não gosto da vida, se
sou infeliz que faço eu aqui, entristeço os outros? Sou um monstro que só serve
para te irritar, como gostas de dizer? Pois, vou-me embora. Para sempre, vou
desaparecer na história. Tantas desilusões, decepções… tu nunca te fartas. Como
te odeio. Algum dia me vais amar? Vais entender como é viver a dois? Não, não é
um mais um na mesma casa. Trata-se de ceder, ceder muito, ceder tanto meu amor.
Adaptar, mudar hábitos… e não odiar o outro a cada frustração ou vontade
gorada. Ensinaste-me a odiar-te, a não confiar, a ter medo de falar, medo de me
abrir, de ser sincera. Queres uma mulher que não sou. Lembras-te como era
quando te apaixonas-te por mim? Olha para mim agora, decerto não me adivinhas
os encantos. Meu querido amor, tantas coisas boas que fizemos, tanto me deste…!
Seu dissimilado, és capaz de fazer com que eu te veja como um ser desprotegido,
frágil, abandonado…quantas capas tens? Quantas caras? Eu não soube fazer-te
feliz, não tinha passado para isso, tinha uma história, nunca soubeste viver
com ela. Quando se ama, a história do outro é também a nossa história. Só aí,
se começa uma história. A minha acabou
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Muitíssimo bem-vinda! Se todos os retornos fossem com esta intensidade, todos, sem exceção, desapareceriam de quando em vez!
ResponderEliminarUm bom abraço,
Baião
Sem dúvida que o amor termina - em parte - com a nossa história individual, começando uma história a dois.
ResponderEliminarExato. O amor da Madalena nunca soube lidar com a história individual dela e aproveitou-a para se galvanizar... há que começar uma história a dois... só depois de se saber viver com o passado de ambas as partes. *
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